Viviane Mosé - A escola e os desafios contemporâneos


“Nossa educação hoje é castradora e elimina líderes.”

viviane moséViviane Mosé lança nesta semana o livro "A escola e os desafios contemporâneos". Para ela o ensino no Brasil ainda é preso a uma estrutura do passado, que trata o aluno como um decorador de conteúdos. Viviane defende que, numa sociedade em que o acesso ao conhecimento foi democratizado em redes sociais, é preciso abandonar modelos de ensino em massa para priorizar a educação um a um.

Em entrevista para O Globo Educação Viviane Mosé enfatizou que uma escola para ser contemporânea não precisa ter nenhum computador em sala. Em sua opinião: “Temos de trabalhar com o raciocínio, e não com dados. Já temos um número de acesso à internet altíssimo, mesmo nas classes populares. Professores e alunos já fazem uso de tecnologia em casa, eles já acessam Facebook. Não é este o problema. A revolução da tecnologia é uma revolução da memória externa. O que o professor tem que entender é que decorar é inútil. Até então, precisávamos decorar para ter conteúdo. Mas, hoje, se você não lembra do conteúdo, você o acessa pelo celular. A internet é um lugar tanto perigoso como maravilhoso.

Temos hoje é que priorizar na educação a figura do pesquisador. O objetivo tem que ser, desde os 6 anos de idade, formar pesquisador. Desta maneira, estaremos dando a uma criança capacidade crítica para que ela faça os recortes corretos na rede. Se você mantém o modelo educacional em que o aluno é passivo, ele fica vítima desta rede. Nossa memória não é mais um banco de dados. Ela é uma memória viva, presente. Professor não ensina, é o aluno que aprende. Isso muda as relações de poder dentro da escola. A única possibilidade que temos para a educação é pensar no aluno pesquisador, capaz de desenvolver soluções para este mundo que desaba, que está em crise. Neste sentido, a crise é excepcional, pois precisamos de respostas que nos levem à transformação em uma sociedade mais justa e sustentável.”

EM SUA REDE SOCIAL VIVIANE MOSÉ POSTOU TRECHOS DO NOVO LIVRO

Trecho da entrevista com o Rui Canário, da Universidade de Lisboa:

"Quero falar de um conceito muito rico de Ivan Illich de convivialidade. Esse conceito supõe uma teia de relações sociais rica, tensa, interativa entre várias relações, assimétrica entre pessoas que sabem coisas diferentes e em que todos os sabres são valorizados. O contrário das nossas sociedades urbanas, que são aquilo que um sociólogo americano, num livro nos anos 1950, chamou de "a multidão solitária", e que é um mundo de grande violência. Como é sabido, as grandes metrópoles são, por disfunção, cada vez mais desumanizadas e mais violentas. Ora, a perspectiva de uma educação diferente supõe, de fato, a reconstrução de laços sociais diferentes. De alguma maneira, é a recuperação desses laços de convivialidade que ainda encontramos em comunidades rurais ou encontramos no acampamento sem terra e corresponde à ideia de que uma criança não é para ser educada em uma escola, é para ser educada em uma aldeia, em uma comunidade. Portanto, a educação tem de ser parte integrante de toda a

vida social e não uma coisa à parte. As escolas estão se transformando em depósito de jovens e crianças"

Trecho da entrevista com Rubem Alves:

VM: O que é fundamental aprender? O que é fundamental no ensino? A gente fala muito de Ensino Fundamental. Mas o que o senhor considera fundamental para um ser humano aprender?

Rubem Alves: Eu acho que a coisa mais importante é não ter medo, porque o medo paralisa a inteligência. Eu vou contar pra você uma coisa que o Gilberto Dimenstein sempre me provoca para repetir. É uma imagem que eu uso sempre. Eu digo que a inteligência é igual ao pênis. O pênis é um órgão flácido, ridículo, vertical, que aponta para a terra, mas se provocado ele sofre extraordinárias transformações hidráulicas e passa a apontar para cima e ganha o poder de dar prazer e de dar vida. A inteligência em seu estado normal é flácida e desinteressante, mas, se provocada, ela olha para cima. O Fernando Pessoa diz: tenho uma ereção na alma. Veja que coisa, ele percebeu isso. Então, tem uma ereção da inteligência, aí ela dá prazer, ela quer sentir prazer, ela quer criar vida. Agora, se você tem medo, o pênis e a inteligência não funcionam. Então, a primeira coisa que o aluno deveria sentir no olhar da professora é: olha, aqui é o campo da liberdade. A primeira coisa na educação não é ensinar uma coisa, é criar esse ambiente de liberdade, de curiosidade, no qual a inteligência da criança entre em ereção.

Rubem Alves, um dos entrevistados de "A escola e os desafios contemporâneos", provoca o fundamental, o gosto, a paixão pela vida. Ele é um poeta, um artista, um sedutor, mas não é um sonhador, sabe muito bem do que está falando. Conhecê-lo foi uma daquelas experiências que a gente nunca esquece.

Ainda na entrevista para O Globo Viviane expôs sua opinião:

“Acabou a educação de massa. Não temos nem mais meios de comunicação de massa. A pior coisa para a educação é um ensino de massa, com apostilas preparadas para um ser humano único. Temos que ter uma escola que incentive os alunos a descobrirem seus próprios talentos.”

“O nosso desafio hoje não é dar diploma, mas dar poder à população de saber. Não adianta a classe C botar roupa bonita e comprar carro, pois será excluída igualmente deste sistema. Interessa é que a pessoa pensa, elabora. O desafio da escola é ser um a um. O futuro da educação é um a um, é a escola respeitar um a um.

Temos que acreditar na nossa juventude como criadora de conteúdo, mas estamos ensinando ainda como um país submisso, que faz com que crianças se enquadrem numa estrutura que não é mais contemporânea. A nossa educação é castradora, está sempre cortando a cabeça dos líderes e inteligentes. A nossa melhor educação elimina as nossas lideranças. Este é o problema.”

 

 

Viviane

Viviane Mosé: Psicóloga e psicanalista, especialista em políticas públicas pela UFES, mestra e doutora em filosofia pela UFRJ. Palestrante e comentarista da rádio CBN.

 


 

 

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