Quando a postura do educador facilita


Edileide Castro

Ao longo da história, a escola tradicional enraizou em sua prática um sistema de valores onde a educação fragmentada é privilegiada, o ser humano é educado “por partes”, como se o estivesse numa linha de produção onde cada pessoa aperta um parafuso ou coloca uma peça e no final, a produção está concluída... “ Mas essa visão faz parte do passado!”

Como seria bom se essa prática fosse do passado, como dizem alguns, se apenas escolas ditas tradicionais agissem nesta ótica. Infelizmente, a realidade é que muitas escolas dizem que tratam o aluno de forma integral, que trabalham a interdisciplinaridade, que vivenciam o “educar o ser”, mas na realidade não passa de propostas ou projetos, os quais teoricamente seriam acolhidos por todos os educadores. E o trabalho fragmentado e dividido persiste, por razões conscientes ou inconscientes.

Há verdadeiramente, por parte de vários educadores, o desejo de mudar este quadro de fragmentação; eles falam e agem para tal mudança, entretanto, as resistências, assumidas ou veladas, vão minando o processo de construção coletiva. Algumas incoerências são comuns entre educadores que dizem que acreditam na necessidade de trabalhar “o todo”, mas resistem ao processo coletivo e à educação integral e interdisciplinar:

O educador DIZ: (discurso)

O educador FAZ: (prática)

“A integração entre as disciplinas é fundamental.”

Trabalha de forma isolada, sem buscar a integração e interação.

“É preciso planejar ações em equipe.”

Planeja coletivamente para obedecer ao proposto, mas não age em equipe, isola-se ao longo do processo.

“A saída para a educação é trabalhar o ser. Portanto preciso trabalhar o aprender a conhecer, a fazer, a conviver e a ser.”

Nega aos seus alunos a oportunidade de vivenciar experiências ou elaborar o conhecimento de forma prática, alegando que os alunos fazem barulho e são desorganizados.

“Busco interação e diálogo com meus colegas educadores e com os alunos.”

Usa uma metodologia que favorece a concepção fragmentária.

“A educação deve ser inovadora, atualizada, avançada.”

Continua com a mesma prática de sempre, sem apropriar-se do novo e sem acreditar que há saída pela educação.

Diante destas e de outras incoerências o trabalho pedagógico é fragilizado, o processo de ensino-aprendizagem do aluno é prejudicado e a mesmice acaba sendo a saída para manter-se uma “falsa ordem”, que dará continuidade aos conceitos e preconceitos vivenciados há tanto tempo no meio educacional. A busca pelo acerto exige dos educadores uma postura íntegra, onde o que ele diz é realidade em sua prática.

Para corrigir distorções é preciso tratar o professor também como ser integral: com sentimentos, emoções positivas e negativas, desejos, limitações e uma longa história de acertos e erros, de alegrias e dores. Para romper com muitas incoerências faz-se necessário trabalhar as emoções, o desejo, que é a força que move a pessoa para atingir uma meta. Muitas reações que dificulta as relações interpessoais e pedagógicas têm suas origens nos recalques e dramas pessoais dos educadores e devem ser tratados. Assim como para Goleman, a Inteligência Emocional exigia uma nova postura pessoal: 1. Conhecer as próprias emoções; 2. Lidar com emoções; 3. Motivar-se. 4. Reconhecer emoções nos outros; 5. Lidar com relacionamentos; para haver interdisciplinaridade é necessário o desenvolvimento da Inteligência Emocional. Quando o educador trabalha seu interior, melhora-se como ser humano, sendo amante da vida e dos seus desafios, tornando-se acessível a situações de integração, interação, diálogo, sensibilidade, troca, reciprocidade, mutualidade.

As nossas atitudes são movidas por fatores internos. Um educador que tem dificuldade de relacionamento, que não desenvolveu sua inteligência emocional, enfrentará uma grande barreira interna para interagir com seus colegas ou para desenvolver um projeto além da sala de aula, pois para ele, a escola ainda não é a vida. Ele pensa: “A vida do aluno é complicada e deve ficar lá fora.” Mas ele traz seu próprio mau-humor, sua indisponibilidade, sua insegurança, sua capacidade de criticar sem apresentar soluções e de ver defeitos em tudo e em todos. Aluno rejeita este tipo de educador, pois eles precisam e desejam segurança (sem repressão) e bom humor.

Para avançar, é preciso romper com: o medo do novo, a incerteza das ações e reações, a rigidez interna, os vícios do pessimismo pessoal, as “desculpas” para não realizar, as falas negativas que fazem mal a si e contaminam os outros. Para avançar é necessário fazer a diferença em sua prática, ser notável, prosseguir no que acredita, mesmo que haja indiferença. Você realiza!

Educadores que têm uma prática interdisciplinar são notáveis, vão além dos livros e transmitem a vida em seus gestos e atitudes. Veja algumas características comuns a eles: flexível; organizado; responsável; cooperativo; perseverante; longânimo; empático; seguro; resiliente; otimista; coerente; íntegro; proativo; bem-humorado; busca integração; é disposto ao novo, é capaz de relacionar-se bem em meio a divergência de opinião; sem preconceito, sabe ouvir e dialogar; autoestima elevada; compartilha suas ideias; admite quando erra; divide os desafios e conquistas; interage com colegas e alunos; gosta de desafio; desenvolve sua inteligência emocional. É maravilhoso conviver com um educador assim, pois ele é um facilitador da construção coletiva.

Avalie sua prática e veja em que você pode ser melhor: para você e consequentemente para os que estão ao seu redor.

 

João Oliveira Edileide Castro - Pedagoga, Psicanalista Clínica, Escritora, Consultora e Palestrante.

www.edileidecastro.com

edileidecastro@hotmail.com

 

 

 

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