“Hiperatividade” e as férias escolares: pais desesperados


Marjorie Calumby Gomes de Almeida

HiperatividadeO período das férias escolares se aproxima e com elas a ansiedade e até mesmo o desespero tornam-se visíveis a maioria dos pais. Não raras são as vezes em que os pais têm lotado os consultórios psicopedagógicos e psiquiátricos em busca de uma indicação medicamentosa para cuidar do “comportamento” dos filhos, desta vez não para se concentrar nos estudos em sala de aula, mas sim em casa durante as férias escolares.

Não seria este um momento aguardado por toda a família para curtirem juntos programas agradáveis e que o bem-estar seria a base primordial para tornar os laços afetivos ainda mais fortes entre a família? Seria talvez em outras épocas ou este propósito lamentavelmente tem sido voltado a um grupo cada vez mais restrito na sociedade atual.

Com tantos compromissos que a modernidade exige dos pais para que possam cada vez mais construir e manter patrimônios, os mesmos tem delegado suas responsabilidades insubstituíveis para terceiros, ficando estes para babás, escolas, creches, avós, tios, etc. Afinal, os pais precisam dar tudo o que há de melhor aos seus filhos (em termos materiais) e assim, como forma de “recompensa” pela presença contínua de ausência, os pais inconscientemente sobrecarregados de culpas, não economizam presentes. Estas crianças, excessivamente mimadas desconhecem o “não” e se acham no direito desde muito pequenos a fazerem tudo o que sentirem vontade, sem restrições. Não têm limites para tevê, internet, celulares, games e tudo o mais que os satisfaça.

Mas e os relacionamentos? E como está sendo o desenvolvimento fora da vida tecnológica? Qual a qualidade da vida REAL?

Com as férias, os pais precisam passar mais tempo com essas pessoas que eles pouco conhecem, pouco dialogam, pouco sabem a respeito, e então eis o problema: cadê o controle da situação? Lidam com crianças que mais curtem a vida virtual; que comem, falam e agem como querem, sem respeitar qualquer hierarquia, sem respeitar horários, entre outros. Apavorados, os próprios pais se negam a perceber que se trata de uma extensão da própria educação recebida no seio familiar e buscam pílulas mágicas para salvar a situação.

HIPERATIVIDADE tem sido esse o grande vilão nos últimos anos. Tem sido ele o grande culpado pela falta de limites das crianças da atualidade. Afinal, tendo um rótulo, um distúrbio, uma doença, um tratamento envolvido na história, isenta qualquer pessoa de responsabilidades. É fato que a hiperatividade existe, mas deve ser devidamente diagnosticada e tratada com seriedade por profissionais qualificados. O que não é aceitável é esse modismo de diagnósticos desenfreados, onde remédios são receitados indiscriminadamente como temos nos deparado freqüentemente. É necessário que os pais façam um exame de consciência, analisem bem como tem sido o seu exemplo e compromisso no processo educacional dos seus filhos. Para isso não é necessário abandonar empregos, mas sim, perceber que mais do que a quantidade, a qualidade do tempo em que eles desfrutam juntos é o que importa, e que dizer “não” é também uma prova de amor, um modo de educar, pois está preparando seu filho a lidar de forma saudável com as frustrações que a vida não o poupará por ser seu filho. Portanto, rever os conceitos seria uma das atividades saudáveis a serem incluídas nos planos das próximas férias, pois buscar remédios para controlar comportamento em plenas férias é na verdade querer nada mais, nada menos do que tentar substituir suas responsabilidades para uma babá química.


Prof. Marjorie CalumbyMarjorie Calumby Gomes de Almeida.
Psicopedagoga clínica e institucional.
Porto Alegre -  RS.

 

 

 

 

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