Educar e conviver


Sheila Christina Sant´Anna

Educar e conviverNão acredito na educação unilateral, centralizadora e de cima para baixo como forma de produzir bons resultados. Aquela que só ensina e não aprende. Cega, muda e surda aos apelos da atualidade. Fechada e radical. Aliás, esse modelo não funciona mais nem fora da escola. Educação é muito mais, e com certeza, o viés para o bem viver e conviver.

A começar pela família, que boa ou má, inicia o processo educativo e a construção do ser. Nela, se exercita a disciplina, a noção de hierarquia, de trabalho, colaboração, o respeito às diferenças; se exercita a ética, o poder e muitos outros valores que servem de referência por toda a vida. O problema é que com a aparição de novas prioridades e variações dos modelos familiares, essa rotina mudou. Não que alguns desses novos modelos não funcionem bem. Mas o que era exceção, agora é regra.

A correria desenfreada pelo sucesso e dinheiro, fez com que o encontro entre seus membros se extinguisse ou diminuísse. As refeições diárias, ao menos uma, conhecido espaço dedicado à família, são um exemplo. De importante relato das experiências cotidianas, um laboratório e termômetro dos pais sobre como estão sendo aplicados na prática os ensinamentos passados aos filhos, transformou-se em prato na mão sobre os joelhos, no sofá, no chão em frente à TV ou computador. Praticamente sumiu.

O que era um proveitoso momento, incentivo ao convívio, observação e troca, tornou-se rápido, chato ou démodé. Isso como se fosse possível viver bem sem trocar com o ninho, primeira via de atenção, onde reside o afeto e tudo o que há de mais importante para o desenvolvimento e manutenção do equilíbrio do eu.

Que o digam os Psicólogos… Que por sinal, importantes aliados, estão quase loucos de tantos problemas que poderiam ser resolvidos apenas com uma refeição atenta às más e boas tendências, que se detectadas a tempo e sob o efeito de um bom conselho, seriam percebidas e tratadas com repreensão ou elogio, respectivamente.

Mas o conselho, velho amigo, sincero e verdadeiro de quem o reconhece assim, se afastou juntamente com a reunião familiar. Ocasião em que se estreitam laços, que são um porto seguro, fonte de apoio e de referências também. Base por onde trafegam os principais valores nos quais nos apoiamos na vida.

Ao sermos orientados por nossos pais, familiares ou responsáveis, adquirimos autonomia e cultivamos o autoconhecimento pela observação de nossas vivências, das vivências dos outros, dos fatos e pela reação que nos causam. Reações que nos ajudam a definir e a classificar importantes sentimentos. Fase de amadurecimento e momento no qual, o que de mais importante está acontecendo. O ser humano está aprendendo. E independente da idade, precisa saber-se e sentir-se acompanhado.

É quando a presença de quem está mais perto ganha relevância e a família ou o responsável não deveriam faltar. Fato que não necessariamente se dá por vontade própria, é bom lembrar. Mas que comumente, faz com que quem esteja mais próximo, acabe por ocupar esse lugar.

E é o professor, geralmente, que abraça e aceita o desafio, mais com o coração do que como uma atribuição dos tempos modernos. Desafio que o coloca de frente com questões pessoais como: separação, traição, sexo, drogas, preconceito, bullying e outras mais, que identificadas com sua história pessoal, por vezes o fazem sofrer.

Essas questões demandam sentimentos, que movem o despertar no outro o gosto pelo saber, e do melhoramento através da descoberta das próprias potencialidades. E decodificá-las de modo que fiquem inteligíveis, é um incentivo ao seu desenvolvimento, porque desobstrui e cria canais de ligação com o mundo, permitindo sua fluência.

Processo de descoberta de recursos individuais, que provoca a elevação da auto-estima e auto-sedução por parte do aprendiz, que passa a se enxergar capaz. É o despertar de suas faculdades e possibilidades que se descortinam, e que o levam a continuar a sua trajetória de construção.

Educar é cultivar o orgulho pelo resultado desse processo, que cria laços muito fortes de confiança e de cumplicidade. Por isso, é comum ser pago com sentimentos também. Agradáveis ou desagradáveis. Uma moeda que só quem educa conhece. E essa troca de energia, de saberes adquiridos e intrínsecos, facilita a execução da função, até por indivíduos voluntários capacitados, seja para assuntos educacionais tradicionais ou não.

É uma ação, que pela própria natureza, possui a essência permeada pelo amor e doação, e não só de conhecimento, que além da troca de saberes, necessita de uma boa administração e conservação do equilíbrio por parte de quem ensina. Exigência nem sempre fácil de cumprir, face o compartilhar da porção humana entre as partes envolvidas, e causa de problemas de difícil solução, dependendo às vezes, de acompanhamento ou ajuda especializada.

Vivência que, assim como enaltece e especializa humanisticamente quem a pratica, também o pode confundir. E nessa complexa linha tênue entre o pessoal e profissional na qual caminha o educador, está o segredo da arte de sobreviver física e psicologicamente para melhor viver e conviver. Oportunidade pela qual é possível reconhecer os seus talentos e vulnerabilidades e onde talvez resida a chave facilitadora de suas escolhas, e à medida que se deixar orientar por ela, melhor orientará.

Resultado da prática do autoconhecimento, que questiona e analisa permanentemente ações e reações. Um trunfo de quem sabe quem é, para onde vai e o que quer, mesmo que temporariamente. E ser assim, é ser humano. Em constante transformação, sem perder a sua essência. E saber-se assim, é acompanhar-se e conhecer-se. E desenhar o valioso mapa de quem se experimentou, ousou, acreditou e descobriu o caminho que leva à satisfação.

Um sentimento que precisa ser clonado e divulgado porque contagia e tem um enorme poder de propagação. Compartilhá-lo chega a ser um dever de cidadão, uma questão de fraternidade positiva, que anda bem sumida em nosso tempo!

Estamos acostumados ao marketing negativo do cotidiano, basta olhar as manchetes diárias. São tragédias, corrupção ou violência, infelizmente. É o que vemos e ouvimos mais. Para que possamos reverter esse quadro, cultivar o hábito de externar a satisfação pelas conquistas realizadas, pelas boas ações, pelo belo, pelas pessoas que realizam e ultrapassam seus limites positivamente, deve ser incorporado à nossa rotina diária.

O outro, ao saber de algo que deu certo, pode ser encorajado a perseverar em seus objetivos. E ter essa consciência, é fundamental. É outro desafio, que pensando bem, é apenas mais um diante da realidade diária, na qual vencemos vários, pelo simples fato de termos voltado para casa, persistido na crença em nós mesmos, no mundo ou em Deus.

E esse, talvez seja o fato mais relevante para um resultado favorável: não desistir de ser quem é, procurando exercer funções que realmente dão prazer, trilhar o seu caminho e direção, lembrando que mesmo seguindo as tendências de mercado, prática corriqueira atual, devemos estar cientes de que apenas elas, sem identificação com o verdadeiro propósito pessoal, não são garantia de sucesso e satisfação.

Quantos se perdem porque se rendem ao apelo apenas financeiro, de visibilidade ou por não pensar nas conseqüências de seus atos. Isso, sem contar que o resultado pode não corresponder ao esperado. E aí, vem a frustração, que infelizmente, não é tão sumida em nossos dias.

Será que isso é o que realmente importa? É essa herança que precisamos deixar para nossos filhos? Repetir modelos que não serviram para nós? Somos cada um, um. Únicos, graças a Deus! Já pensou como seria chato e feio um mundo de iguais, isentos da oportunidade de aprender com as diferenças e respeitá-las?

É assim que a função de educador se torna importantíssima na formação dos homens e do futuro que os espera. Ocupa um lugar estratégico, e que por ter se tornado um mix de atribuições absorvidas ao suprir algumas outras necessidades, agrega mais valor e por isso recebe além do salário, um bônus, que está acima da compreensão de qualquer outro profissional que não exerça essa prática.

Torna-se tão especial, que precisa aprender a sustentar, administrar múltiplas exigências, ter consciência de seu verdadeiro papel, com equilíbrio, preparo e o apoio da formação continuada, sempre atento às suas necessidades pessoais, as do mercado e procurar satisfazê-las como forma de acompanhar a evolução dos tempos, sem se descaracterizar. Fácil? Nem um pouco!

Mas, com certeza, fundamental para não negligenciar sua saúde, ver-se integralmente, aprender a ser gestor de si mesmo, aproveitar o convívio e perceber de que forma seus alunos pensam, aprendem e o estágio em que estão, identificando suas dificuldades, seus talentos e competências, entendendo ser este um processo contínuo, de aprendizado mútuo, onde ensinar e aprender estão intimamente ligados à vivência de cada um.

E assim, o educador segue, mudando o seu olhar, fazendo diferente, ajustando a trajetória, canalizando esforços para a construção da escola que os alunos desejam, e cumprindo a sua parte. Consciente do quanto é essencial no processo da evolução humana, doando incondicionalmente o que há de melhor em si e objetivando despertar o que há de melhor no outro. Além disso, colabora para consolidação da autonomia, respeitando o tempo de cada um, fator decisivo na construção do conhecimento e básico para a cidadania crítica, reconhecendo em si o protagonista de um possível final feliz, motivação suficiente para continuar, sabendo que apenas por contribuir para esta possibilidade, ganha um significado especial na vida, no mercado, no mundo e para aquele com quem troca.

No íntimo, todo educador, em qualquer instância, nutre a esperança de que um dia, seja reconhecido por todos o que já é público e notório: o que foi, é, e sempre será. Indispensável. Adjetivo, que o faz sentir-se orgulhoso de seus esforços, pelo elevado grau de abrangência e significado que possui na vida de cada indivíduo. Significado capaz de ampliar visões, que transparecem possibilidades, que transformam o homem e mudam destinos. Status que pouquíssimos profissionais têm.


Prof SheilaSheila Christina Sant´Anna é carioca, Especialista em Educação a Distância (SENAC/RIO), Pedagoga( UESA/RJ) e Publicitária( FACHA). Atualmente trabalha como consultora de assuntos educacionais, soluções e projetos relacionados à EAD. Como pedagoga, na confecção de cursos para treinamento e formação de professores. Realiza trabalho voluntário em EJA (Educação de Jovens e Adultos), e em projeto de incentivo à prática de valores humanos às comunidades carentes da Ilha do Governador. 

 

 

 

 

blog comments powered by Disqus