Sobre a violência


Prof. Nelson Pascarelli Filho

“Se a educação sozinha não transforma a sociedade,
sem ela, tampouco, a sociedade muda.”
(Paulo Freire)

ViolenciaO Homem é um ser biopsicossocial e político que tem consciência da sua existência finita. Ele sente angústia e é capaz de mudar sua realidade através das Ciências, Tecnologia e Artes. Em nome do progresso e por prazer, ele destrói e faz o outro sofrer.

Compreender o comportamento violento humano implica em analisar fatores sócio-políticos, psíquicos, culturais e o momento histórico.

Explicações para violência no âmbito da Psicanálise e da Psicologia consideram o processo de construção e sociabilidade do Eu: Como se deve ver o outro a partir do outro?

O sujeito agressor busca aliviar as tensões provocadas pela pulsão de morte causando danos físicos, psicológicos e morais ao outro. A pulsão de morte que se manifesta com fins destrutivos para afirmar e proteger o Ego através da negação e desrespeito do outro, está na base das práticas etnocêntricas responsável pela dizimação de culturas milenares e guerras sem fim.

Vivemos sob os ditames da Dromocracia - a Velocidade rege as relações de poder. No século XX tivemos um Hiper-Renascimento: Transplantes, Internet, Viagens Espaciais, Triunfo da Vacinação, Avião, Anticoncepcionais, Energia Nuclear, Liberação Sexual etc.

O desenvolvimento afetivo da Humanidade não acompanhou o hiper-renascimento tecnológico e científico. Vive-se a Era do Vazio, um mal estar existencial que se traduz pela perda de identidade e falta de objetivos: Por que viver? Qual o sentido da vida diante desse império tecnológico veloz e competitivo? O hedonismo moderno, o prazer pelo prazer sem responsabilidade social dará conta de tamanha angústia?

Durkheim, Tavares dos Santos e M.R. Costa conceituaram, respectivamente, a violência como: “um estado de fratura nas relações de solidariedade social e em relação às normas sociais e jurídicas vigentes em dada sociedade; um ato de excesso, qualitativamente distinto, que se verifica no exercício de cada relação de poder presente nas relações sociais de produção social; é uma particularidade do viver social, um tipo de negociação, que pelo emprego da força ou da agressividade visa encontrar soluções para conflitos que não se deixam resolver pelo diálogo e a cooperação.”

O estudo do comportamento violento implica em analisar a subjetividade inerente à psique, às micro-relações de poder, ao conflito de gerações e aos aparelhos ideológicos e repressores do Estado.

Nestes aparelhos ideológicos inclui-se a Escola, que através de seu currículo perpetua a violência simbólica, o ensino dualista, as miniditaduras e o “currículo oculto-oficioso”, pois não existe e nunca existirá neutralidade política na prática pedagógica, mas através dela é possível e urgente capacitar o educando a mudar sua própria realidade, ensinando-o a escolher governantes compromissados com o saneamento básico; educação de qualidade; preservação do meio ambiente e a justa distribuição de renda com a promoção de empregos.

Gestores educacionais bem sucedidos são aqueles que realizam parcerias eficazes com a comunidade. Eles têm poucos problemas com a violência escolar e são bem sucedidos porque aprenderam a resignificar as relações de poder que herdaram de um nefasto modelo educacional eurocêntrico-etnocêntrico, onde se acredita que é possível julgar uma cultura pela outra.

Gestores que alcançam a excelência na prática pedagógica trocam a visão educacional dualista, cartesiana e mecanicista pelo multiculturalismo que prioriza a ética nas relações raciais e a responsabilidade social. Eles abominam o espontaneísmo e têm como missão práticas administrativas participativas onde há comprometimento entre todos os funcionários com objetivos bem delineados e de interesse comum.

Estas são algumas variáveis multifatoriais que regem a violência na sociedade brasileira: Desigualdade sócio-econômica; fragmentação do espaço e da vida urbana; degradação das condições de vida; desemprego; concentração da terra e da riqueza; cultura autoritária na manutenção da ordem; banalização da violência; valores individualistas – tratar o outro como objeto; insensibilidade com a dor do outro; admitir a violência contra excluídos; cultura do extermínio e do medo; sensação crescente de insegurança social; legalização dos interesses de grupos privados e oligárquicos; corrupção ao administrar o que é público; falta de controle do aparelho repressivo do Estado por parte da sociedade civil; falta de vontade política para resolver problemas sociais; crime organizado que contrata jovens e corrompe agentes do Estado para a consolidação da delinquência com ampliação do narcotráfico, contrabando de armas e sequestro; crise nos valores humanitários – amor e respeito aos direitos humanos.

As escolas que venceram a violência caminharam neste sentido:

  • Recuperaram a auto-estima dos educadores;
  • Foram além do conteúdo curricular, oferecendo aos alunos noções de cidadania como a capacidade de reflexão e a opinião crítica;
  • Acreditaram que a dialética é capaz de superar a força, pois é a força que gera o medo, o silêncio e muitas vezes a própria violência;
  • Promoveram a Educação Afetiva e a Educação para a Saúde;
  • Implantaram com persistência a Política de Erradicação Total das Drogas articulando-se com a ação científica que visa à informação que transforma e re-significa comportamentos inadequados;
  • Desconstruíram a imagem criada pela mídia que associa juventude e adolescência com drogas e violência, perpetuando estigmas e equívocos que direcionarão atitudes ineficazes no combate da violência escolar;
  • Gestores e educadores pontuaram aos alunos os riscos e desafios nas escolhas e que toda escolha tem consequências;
  • Fundamentaram a missão da escola com esses pilares - planejamento, persistência e investimento na capacitação docente;
  • Realizaram trabalho sério e conjunto com educadores que tinham vínculo e comprometimento com a comunidade;
  • Firmaram parceria com os Amigos do Bairro, Rotary Club e Lions, que realizam eventos comunitários nas áreas de saúde e resgate da cidadania;
  • Na busca da construção de Identidades favoreceram o trabalho em equipe;
  • Desenvolveram atividades lúdicas, artísticas e esportivas;
  • Através dos Grêmios Escolares propiciaram a participação dos alunos nas atividades e decisões escolares;
  • Formaram mediadores para saber ouvir e conduzir soluções de conflitos capacitando os envolvidos a encontrar a paz na convivência entre os que pensam diferente;
  • Trocaram o peso da culpa que paralisa, pela ação reflexiva - assumir responsabilidades - nos combinamos viver em paz!
  • Combateram o atroz e conivente “silêncio dos bons”;
  • Tiveram como máximo objetivo nunca naturalizar a violência!

Considere: “Nós vos pedimos com insistência: não digam nunca - Isso é natural: sob o familiar, descubram o insólito. Sob o cotidiano, desvelem o inexplicável. Que tudo o que é considerado habitual provoque inquietação. Na regra, descubram o abuso, e sempre que o abuso for encontrado, encontrem o remédio.” (Brecht)

Para Saber Mais

  • Livro : Violência nas escolas: Um Guia para Pais e Professores.  Caren Ruotti, Renato Alves e Viviane Cubas.  Andhep e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. 2007.
  • Filme : Entre os Muros da Escola. Laurent Cantet. França. 2008.
  • Site : www.nevusp.org

 

Prof. Nelson PascarelliAutoria Prof. Nelson Pascarelli Filho

Consultor Científico-Educacional. Conferencista. Escritor da FTD e Publit. 18 livros didáticos publicados e adotados em nível nacional.Pós-Graduado em Microbiologia, Pedagogia Hospitalar, Gestão Escolar e Coordenação Pedagógica. Bacharel em Filosofia e Psicologia. Licenciado em Pedagogia, Biologia, Ciências e Matemática.

Autor e tutor de cursos PPD online – www.cursosppd.com.br

 

 

 

blog comments powered by Disqus