Os arrotos das sombras e as bocas nervosas


Nelson Pascarelli Filho

Ilustracao"O desejo enquanto real não é da ordem da palavra e sim do ato."
(Lacan)

I- Breves Prolegômenos

Sofro de ruído musical, sintoma refinado das minhas vertigens e hoje, domingo, ao acordar ele soava-me assim:

“All thru' the day I me mine,
I me mine, I me mine.
All thru' the night I me mine, I me mine, I me mine.
Now they're frightened of leaving it...”
(Beatles)

II- 1970: Sombras Escolares

O que ouvi dos meus velhos mestres cansados e autoritários? Palavras e palavras, algumas delas formaram os alicerces para o Futuro de Sucesso, agradeço, mas o mérito foi mais meu do que deles, pois aprendi a negar, explico. Reserve.

Outras tantas palavras eram apenas verbalizações vazias que perpetuaram heranças de uma rigidez dogmática e estéril.

O que eles chamavam de Tradição Milenar do Pensamento Ocidental soa-me agora como nojento arrotar após farta glutonaria bufa!
(Exceto Bach que sempre me consolou!)

Tais mestres impregnavam-me com fedor suíno-etílico a regurgitar citações latinas tão distantes de nossos anseios cotidianos...

Agora eu entendo! Elas eram apenas falácias de autoridade – ora por Sêneca, ora por Cristo, Aristóteles, Tomás de Aquino e Santo Agostinho, meras sombras que arrotam – tristes e serviçais marionetes do Partido que se apropriaram e ainda assim o fazem de séria Filosofia para justificar suas atrocidades e domínio capitalista.

Da tradição judaico-cristã fizeram-nos acreditar que o homem é capaz de amar uma só mulher por toda a vida e que a mulher tem vocação natural para maternidade, como se a eterna Deméter fosse incapaz de se transformar em Eros, sórdida manipulação! Eis a negação do desejo que sempre volta para quem deseja desejos.

Os organizadores da fé esqueceram-se da condição biológica – dos feromônios, da perpetuação da Ontogênese e sua intrínseca concatenação com a Filogênese, uma retomando a outra e formando um todo bem maior das partes que a compõe.

O lema da Revolução Francesa aplicada à Condição Humana e seu denso psiquismo; a herança jesuítica distorcida e depois o caótico pombalismo destruindo dolosamente a Educação Brasileira, os dogmas judaico-cristãos que moldaram ideologicamente o homem e o afastaram-no da alteridade: Farsas e mais farsas!

Quem eram esses mestres que se repetiam e nada elaboravam?

Eles eram as imensas sombras que arrotaram sobre os alunos as inflexíveis fórmulas matemáticas e regras gramaticais no qual nunca sabíamos a praticidade delas! Muitos mestres eram do tamanho da disciplina que regiam.

Lembro-me de meus colegas da escola e de alguns professores honestos e cristãos, porém medrosos... Eles eram regidos pela verve da ditadura, assim como outros cristãos que já haviam feito a mesma covardia nos tempos do nazismo, sabiam das atrocidades e dos crimes contra a Humanidade, mas afirmavam em alto tom que o Reino de Cristo está nos céus! Porque envolver-se com César?

Eu sou grato às exceções, àqueles mestres que agem como ótimos psicanalistas que fogem dos holofotes hipócritas da mídia e lá na outra sombra, dos porões, no cantinho do café, eles resignificam vidas!

Vai passar, vai passar! Mas quem bate, esquece, e quem apanha, nunca esquece!

Tenho esta dúvida: A História é escrita pelos perdedores, pelos vencedores ou pelos mártires? E aí está no Brasil a notável máfia dos livros didáticos para confundir ainda mais e emburrecer juventudes.

A máfia dos livros didáticos está aliada as máfias da merenda escolar, da construção de escolas, são elas que regem a face mais tenebrosa da educação nacional. Perdoem-me a digressão.

Tudo que vivenciei durante os anos escolares foi decisivo para potencializar essa minha visão incômoda da realidade e o sentimento de sempre estar gripado - sinto-os desde a tenra infância: Idiossincrasias criativas e ácidas!
(Dizem que quando Camus veio ao Brasil ele estava bem gripado e gripado retratou o Brasil).

II- As Bocas Nervosas

Ao entregar-me a louvores sem fim na juventude, perdi provisoriamente o senso critico e deixei de caminhar pelas próprias pernas, alienado fiquei! Até que encontrei as bocas nervosas que me destruíram certezas eurocêntricas milenares: – Girar o problema! Girar o problema! Gritavam-me as bocas nervosas com seus textos claros e impactantes, até mesmo Lacan.

E as bocas nervosas?

Foi o encontro com Nietzsche, Freud e Lacan – o que se diz, o que se fala e o que se entende está muito além das frases prontas, das citações universais e as bocas nervosas deram-me tiros certeiro na farsa gaulesa: Ninguém é igual a ninguém, nem perante a Lei!

Bem sabemos que no Brasil há uma justiça, bem justa e sufocante para os pobres, prostitutas e pretos e outra tão complacente para os filhos do Poder.

Mas que Fraternidade? Nenhuma.

Temos Tecnologia para explorar Marte e não conseguimos acabar com a fome no nosso sofrido planeta!

A questão da fome não é mais de alçada cientifica, pois a Tecnologia Genética aplicada à Agricultura já sabe como plantar no Deserto!

A fome é falta de vontade política, notável exemplo da mais autêntica demonstração de desumanidade é o triste triunfo do homo demens sobre milênios de humanização! Maldita consagração da Sombra.

Quanto à liberdade, relembro-me com eficiência e paradoxos torturantes: O homem está condenado a ser livre! Cá está mais uma boca nervosa – Sartre! Feliz encontro que tive antes de estudar Lacan.

III- I, Me, Mine

Amontoado de células com desejo de espalhar genes e ouvir Bach para se esquecer da finitude, condição humana: “I, Me, Mine”!
Forças pulsionais perfuram-me: Ex-isto e Sou.
“Torna-te aquilo que és”. (Nietzsche)
Acabou o domingo.

Prof. Izabel GrispinoAutoria Prof. Nelson Pascarelli Filho

Consultor Científico-Educacional. Conferencista. Escritor da FTD e Publit. 18 livros didáticos publicados e adotados em nível nacional.Pós-Graduado em Microbiologia, Pedagogia Hospitalar, Gestão Escolar e Coordenação Pedagógica. Bacharel em Filosofia e Psicologia. Licenciado em Pedagogia, Biologia, Ciências e Matemática.

Autor e tutor de cursos PPD online – www.cursosppd.com.br

 

 

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