Um sol que não tem tamanho


CELSO ANTUNES

SolImagine aquele estudante de Pedagogia que acorda na manhã do feriadão no rancho da praia pelo qual tanto esperou. Como a viagem fora longa e entrara madrugada adentro não se abastecera e descobre que em casa não há absolutamente nada para o café da manhã. Ainda na cama se pergunta se vale à pena pegar o carro, ficar sem café ou empreitar uma caminhada até o armazém da entrada, cerca de dois quilômetros de sua casa. Ficar sem o café impossível, já não jantara ontem e a fome era tão intensa quanto ao Sol que brilhava, pegar o carro era bobagem, pois necessita exercitar os músculos e já há tempos não caminhava. Levantou vestiu seu velho calção e sandália de dedo e tocou rumo às compras.

É claro que, de carro chegaria antes. Mas como seu objetivo além do café era o exercício, retornou minutos depois, um pouco cansado, mas satisfeito. Dera um chute na preguiça e fizera um belo exercício matinal. Lembrou-se então da prova que, depois do Sol e da caipirinha necessitava preparar. Assumira algumas aulas e já avisara a turma que iria proceder a uma avaliação.

A avaliação que desejaria fazer, em muitos pontos assemelhava-se a sua caminhada. Não existe uma avaliação sem que o objetivo do que se busca avaliar não estiver bem claro. Poderia usar o carro, mas como seu objetivo eram os músculos e não a pressa, retornou satisfeito. Assim, pois, ao pensar na prova necessitava perguntar que objetivos visava. Desejaria que seus alunos apenas soubessem o conteúdo e tal como papagaio os repetisse? Ou pretendia que incorporasse os saberes aprendidos, associando a saberes que já se haviam fixado em suas estruturas mentais? Ficaria satisfeito se seus alunos revelassem apenas conhecimento ou pretendia compreensão e com ela a contextualização do aprendido em sua vida e seu entorno? Acharia que a classe teria se saído bem se citassem fatos ouvidos ou pretendia que o saber conquistado pudesse externar o uso de verbos de ação diferenciados como “analisar”, “descrever”, “comparar”, “sintetizar” e outros?

Mas, identificar com clareza o objetivo visado não representaria tudo para uma boa prova, da mesma forma como apenas o objetivo não seria suficiente para dimensionar sua caminhada. Indo de carro, bastaria um calçado qualquer, caminhando melhor seria um tênis confortável, não “pegaria” bem guiar sem uma camiseta, a caminhada pela planície por certo a dispensaria. Uma avaliação, portanto, além de claro objetivo requer que se pense nos recursos essenciais. Serviria apenas uma folha de papel com questões, ou, além da folha, outros recursos seriam usados na avaliação? Quais outros completaria sua prova? Trabalho em grupo, argüições orais, atividades em duplas, elaboração de projetos, diálogo interrogativo cobrando associações e contextualizações?

Quando, de volta para casa tomava seu café, avaliou o percurso e gostou da disposição para enfrentá-lo, mas refletiu depois que uma caminhada ocasional pouco valia para sua qualidade de vida. Necessitaria de exercícios permanentes, pois somente eles equilibrariam a tonicidade muscular com a batida cardíaca e o poder respiratório. A avaliação que iria fazer, mesmo explorando diferentes linguagens, usando recursos múltiplos e com claros objetivos também precisaria se fazer freqüente. Não existe uma boa avaliação quando esta se mostra tópica, pontual, restrita a um ou a alguns dias, mas quando se faz a cada aula, em cada oportunidade, em todo papo que se estabelece, em toda interrogação que a fala do professor precisa sempre explorar. Não é difícil manter-se em forma e menos difícil ainda é promover uma eficiente avaliação; as semelhanças são muitas, muitas outras além das que nesse pequeno texto se explorou. Mas, concluída a experiência comparativa, parece sobrar duas questões: a primeira é qual a relação entre o título desta crônica e o que no texto se descreveu e a segunda porque o exemplo com um estudante de Pedagogia e não um outro professor qualquer?

A resposta é que metáfora sobre praia somente tem sentido em dia de Sol que não tem tamanho e a segunda é que se o leitor já é professor experiente, sabe de cor e já aplica o que acima se disse e para ele não vale a pena em dia de Sol, a chuva no molhado. Desculpe.

Celso Antunes

CELSO ANTUNES
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