A galinha e os pintinhos


Maria Tude

SuperprotecaoA galinha é a mãe dos pintinhos e eu, desde sempre, ouvia dizer que “pé de galinha não mata pinto”! Não sei se isto é verdade com as aves, “mas com gente é diferente”! Até onde a ansiedade amorosa exagerada no desempenho desse papel maior e mais significativo, que é o de nidar e cuidar do desenvolvimento físico, mental, intelectual, afetivo e espiritual de “nossas crias”, poderá nos levar ?

Cuidamos obsessivamente, possessivamente, de suas vidas com o medo sempre presente de perdê-las para o mundo e até mesmo para Deus. Ao mesmo tempo, sentimos a necessidade de valorização social, de “mostrar serviço”, mostrar que somos eficientes, que sabemos ser mães, que somos boas mães, que somos super mães! Nós os alimentamos, banhamos, levamos à escola, ao médico, ao dentista... Ficamos atentas ao vestuário deles ser adequado às situações e ao clima (mesmo quando eles já estão adultos e até “coroas”!). Brigamos e choramos por eles e, quantas vezes, os fizemos saber que “morremos para o mundo por eles”, para cuidar de suas vidas (porque eles não nos pareciam aptos para vivê-las do melhor modo!)

Tomamos decisões por eles, ficamos “sempre alerta” para criticá-los e corrigi-los, para que crescessem retos porque “é de pequeno que se torce o pepino”. Mesmo adultos, damos conselhos, palpites, orientações não solicitadas, invasivas e que, na verdade, traduzem “Sozinhos, vocês não são capazes”.

Nós os criticamos com verdades, com uma falta de cerimônia que não teríamos com estranhos (que respeitamos), porque acreditamos que são nossos, que somos íntimos e que, “por amor”, vale tudo!

Quantas vezes acreditamos que agimos como as galinhas valentes e guerreiras, capazes de tudo por suas ninhadas, mas, muitas vezes, não sabemos, como elas, prepará-los para caminharem sozinhos, libertando-os dos cuidados excessivos, que abrandam nossa angústia à custa de lhes transmitir uma mensagem de insegurança, de incapacidade... de transmitir a impressão de que, sem nossa força e direção eles não conseguiriam, eles se perderiam...

Pé de galinha talvez não mate pinto, mas o peso do amor materno, quando desorientado, possessivo, equivocado, da forma que nos foi ensinado e exaltado, pode machucar e até aleijar as “nossas crias”.

“Com gente é diferente...” Ser mãe de gente é tão mais complicado, tão mais complexo! Além da proteção física, existe um “ego” a ser orientado na infância e respeitado pela vida afora; existem responsabilidades a serem entregues aos próprios donos, existem potenciais e dons únicos a serem incentivados e valorizados e existe o nosso exemplo pessoal de busca do caminho para o despertar da espiritualidade.

A galinha cuida da ninhada ensinando-lhe o que sabe. Precisamos descobrir, aprender, talvez reaprender, um novo modo de cuidar da nossa ninhada sem pisá-la, sufocá-la, aleijá-la... por amor!

 

João Oliveira

Maria Tude - http://mariatude.blogspot.com

Contato: mariatude@gmail.com

 

 

 

 

 

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