Afetividade na prática pedagógica


Eugênio Cunha

O afeto é um instrumento pedagógico que precede ao uso do giz e da lousa, todavia, não se tornou anacrônico. O afeto é científico: ao consumar o afeto, o cérebro recompensa o corpo por meio da liberação de impulsos químicos que trazem a sensação de prazer e de alegria. Ser afetivo não é ser adocicado. Ser afetivo é trabalhar com as qualidades as emoções, os interesses e os sonhos. Homem algum vive sem sonhos, pois eles despertam ações.

Em sala de aula, em termos práticos, é trazer para o campo das atividades pedagógicas o interesse e o amor dos atores da escola. Um aluno que ama aprender aprende melhor; um professor que ama ensinar ensina melhor. Porém, não podemos nos iludir achando que basta amar para ser bom professor. Antes, se eu amo, eu estudo, eu pesquiso, eu trabalho e, desta forma, adquiro instrumentos mediadores essenciais ao exercício docente. A carga de amorosidade que está em mim me faz ser um aprendiz do saber para exercer com equidade o meu ofício. A carga de amor que está em mim me faz interessado e responsável para descobrir alternativas nos processos de ensino e aprendizagem. Igualmente, a carga afetiva do aluno o faz irromper a lugares ainda desconhecidos de aprendizagem e saber.

Se não podemos ser afetivos sem adquirir os predicados necessários ao exercício docente, tampouco podemos exercer a prática pedagógica sem os atributos do amor. O que torna o homem feliz é o que ele possui de qualitativo, que outorga valor inestimável a coisas frugais e cotidianas. E sua maior expressão é o amor. O prazer e a vida estão no interior do homem. Por isso, desejo mais justo não há: o de ser feliz.

Quando pensamos em educação, há uma troca que se fundamenta no desejo. O afeto está ligado ao desejo, que surge de uma falta, de uma necessidade. A justa e estreme necessidade de completamento. É para tal que nascemos. Educadores, inevitavelmente, devem ser professores das matérias inerentes a esse princípio indelével da raça humana.

Então, como funcionam os mecanismos afetivos em sala de aula? Primeiramente, é preciso considerar que todo o aluno precisa ser amado, aceito, acolhido. Isso já é uma ação pedagógica. Em segundo lugar, ele precisa ainda ser ouvido, compreendido em seus desejos e curiosidades epistemológicas, que precisam ser estimuladas.

Um terceiro aspecto é a percepção objetiva do nível de desenvolvimento do aluno; seu andamento específico, seu ritmo de aprendizagem. Um quarto fator é o tempo de trabalho nas atividades pedagógicas que poderá ser mediado pelo afeto. Quanto mais o aluno se interessar pela atividade, maior será o tempo depreendido nela.

Podemos afirmar, então, que o afeto possui três dimensões: a pessoal, que desenvolve a autoestima do aluno, revelando as raízes da motivação e do interesse; a social, que estabelece as relações com aqueles que estão no campo escolar e que podem tornar o ambiente estimulante para a aprendizagem, pulsando vida, num espaço de expressão e de experimentação; e, por fim, a dimensão pedagógica, que cria e mantém os vínculos do aluno com o objeto de estudo, possibilitando afinidade com o processo de ensino e aprendizagem.

Com efeito, a partir do princípio afetivo da atividade pedagógica, o professor encontrará recursos para o seu trabalho em sala de aula. Não se trata de uma regra, mas de um caminho, pois o afeto traz o interesse para os movimentos de ensino e aprendizagem. Quais atividades o aluno gosta de fazer? Como utilizá-las para desenvolver sua aprendizagem? São perguntas que irão ser respondidas nesse percurso.

Ademais, na educação há a possibilidade de uma formação considerando a função social e construtivista da escola. Entretanto, o ensino dos conteúdos escolares não precisa estar centrado nas funções formais e nos limites pré-estabelecidos pelo currículo escolar. Afinal, a escola necessita aprender a se relacionar com a realidade do aprendente. Nessa relação, quem primeiro aprende é o professor e quem primeiro ensina é o aluno. O afeto é um potencial mediador dessa aprendizagem.

Sugestões de atividades:

  • Jogos diversos, principalmente aqueles que trabalhem linguagem, matemática e conhecimentos gerais;
  • Jogos e atividades que utilizem novas tecnologias digitais;
  • Trabalhos individuais e em grupo envolvendo, por exemplo, música, pintura e desenho;
  • Atividades esportivas individuais e coletivas;
  • Pesquisas em distintas áreas do conhecimento sobre temas que o educando tem interesse;
  • Atividades pedagógicas em que o aluno possa compartilhar com a turma o seu saber.

É bom ressalvar que tão importante quanto propiciar as atividades é observar como o aluno se comporta diante delas. Decerto, as tarefas na escola poderão ter conceitos objetivos e subjetivos para que o aluno aprenda de forma direta e indireta, desenvolvendo distintas áreas do conhecimento.

 

João Oliveira Eugênio Cunha - Doutorando e mestre em educação, psicopedagogo, jornalista, palestrante, pesquisador do GRUPPE/UFF/CNPq, professor do Sistema Montessori e da Faculdade Cenecista de Itaboraí. Autor dos livros: “Afeto e aprendizagem”, “Autismo e inclusão”, “Afetividade na prática pedagógica” e 'Práticas pedagógicas para inclusão e diversidade', publicados pela WAK Editora.

Site: http://www.eugeniocunha.com/

 

 

 

 

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